The only real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but in having new eyes. Marcel Proust


terça-feira, 24 de abril de 2018

Livro: As Laranjas não são o único fruto/Oranges are not the only fruit

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Não ia resenhar esse livro, que li em inglês, porque não achei em português. Mas seguindo minha premissa de só resenhar o que aparentemente não encontrei resenhado em português, então sorte das laranjas.

Esse livro é o primeiro que Jeanette Winterson escreveu, portanto, se ela não tivesse escrito outros este não seria considerado um livro de formação, de estreia. Nele ela conta sua experiencia como filha adotiva de uma mãe fanática por sua religião, uma espécie de crente cega e abobalhada que de dez palavras, dez são sobre a bíblia ou Jesus ou Deus. Aquelas pessoas que trocam de cérebro quando entram em algum culto, porque suas vidas devem ser tão vazias que enche-las com o discurso bíblico as faz feliz, mas elas se isolam do mundo e só tem vida na igreja ou na comunidade religiosa. 

A menina, Jeanete é adestrada nesse meio e repete com maestria o mesmo discurso, mas ao ir para a escola ela é reprendida quando seus trabalhos e seus projetos versam apenas sobre temas bíblicos. As profes dizem: Menina vira o disco!. Não falam exatamente assim, mas vão falar com a mãe porque, dessa maneira a menina se torna impopular e ninguém suporta aquela falação de igreja fora da igreja ou do meio. 

Mesmo quando a menina se esforça para fazer um trabalho com temas não bíblicos, eles são tão acima da média que as crianças que fazem um trabalho bem simples e bobinho ganham os prêmios e os elogios. Porque ser criança é ser simples e não acima do seu tempo. Esse é o recado da escola, mas a menina não entende o que há de errado e não quee mais ir para a escola.

Na igreja ela conhece uma menina por quem passa a ter um afeto, um contato simples como segurar a mão ou abraçar, poder conversar. Para alguém tão carente de contato aquilo se torna uma obsessão e ela não para de olhar para a menina na igreja. As duas passam dias e noites juntas. Até que são descobertas e expostas na frente de todos no culto, pelo pastor. Uma verdadeira inquisição se forma. A outra  menina promete se arrepender do pecado e se isola para rezar. Jeanette resiste e depois finge também se arrepender. A menina vai embora para estudar na universidade e quando volta está prestes a casar, mas Jeanette já tem outra namorada. Também são pegas pela vigilância da igreja, mas Jeanette inventa uma história para livrar a outra menina da santa inquisição da igreja. Depois dessa última afronta inquisitória ela decide que chega de humilhação e vai embora para Liverpoll, voltando só esporadicamente a sua cidade. 

Para quem tem afinidade com religião vai ser fácil ler. Para quem não suporta o discurso bíblico vai ter que ter muita paciência porque é o livro todo nessa toada.

Por que laranjas? Porque era a única fruta que a mão dava para a menina. Quando ela reclamava e pedia outras frutas, a mãe dizia que laranja era a única fruta que existia. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Livro: A Senhoria



Ordinov tinha um projeto enquanto vivia só com seus livros. Mas ao se deparar com uma moça na igreja e ser despertado por sua devoção e beleza passa a ser atormentado pelo desejo. O desejo arrasta Ordinov novamente aquela mesma igreja na esperança de encontrar a mesma moça e vê-la mais uma vez. E ela lá está a rezar. Ele então se aproxima dela e ela o percebe. Talvez já o tenha percebido da outra vez. 

Mas nada acontece, Ordinov está a procura de outro lugar para morar e vai de porta em porta, onde vê anúncios de quartos para alugar pedindo informações. Deixa um depósito com um senhorio alemão e vai para outro prédio. Lá ele é recebido pela moça que viu na igreja. Ela é a senhoria que dá título a história e esta o convida a entrar e posteriormente a morar ali. Ordinov tem um mal estar e o vemos tempo depois sobre a cama sendo cuidado pela senhoria. A paixão entre os dois explode, mas há o velho Murin, o senhorio, com quem a moça vive e lhe sustenta. Eles tem uma relação "aberta".  Murin por ser mais velho e doente sabe que a moça jovem, Katierina, não lhe será sempre fiel, portanto tolera que ela tenha afeto por outros jovens. Tanto que chega a propor a Ordinov que se sirva da esposa sem se preocupar com ele. A própria moça leva Ordinov ao quarto do casal para que ambos na frente do marido troquem caricias, mas Ordinov não aceita esses arranjo e decide ir embora no dia seguinte. Ele volta a procurar o locatário alemão e requisita o quarto. Novamente cai de cama por três meses. Quando volta a sair de casa descobre que  Murin e Katerina foram embora do prédio. 

O tom meloso dessa novela foi o que mais me chamou a atenção. Seja um romance ou não Dostô exagera no estilo. Faz parecer quase uma fábula. Um sonho impossível. Afinal um jovem sem eira nem beira nada teria a oferecer a um a jovem sem posses. Ambos seriam dois perdidos no mundo. Mais dois pobres coitados tentando sobreviver. E quando o fogo da paixão passa sobra só a realidade fria e dura da sobrevivência. Não há esperança para esse tipo de paixão. Pelo menos Dostô já deixou claro isso em Gente Pobre e no O Duplo e seguirá nesse mote por toda sua obra. Paixão só leva a desgraça, como levou Alexei em Os Irmãos Karamazov, como levou o príncipe Michkin e Rigojin em O Idiota e sabe-se lá em quantos mais. Seguimos lendo...

Livro: Zazie no metrô

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Achei essa edição da Cosac &Naify, com uma composição gráfica diferente. Todas as páginas são compostas por um cartaz dobrado ao contrário, assim o texto impresso sobre o lado limpo e o lado com a ilustração voltado para dentro. O cartaz também é usado como sobrecapa. Achei as folhas moles de mais e para ler na cama, meu lugar favorito de ler ficou difícil, mas li mesmo assim.

Zazie é uma menina. Não se sabe qual sua idade, mas ela se veste como um menino, de calça jeans e é extremamente desbocada. Usa palavrões o tempo todo. Um comportamento nada convencional. Zazie é uma personagem fora da curva. A mãe matou o pai dela a machadada porque o pai abusava da menina. A mãe foi absolvida porque estava defendendo a honra da filha. Depois a mãe arranja um namorado que também tenta pegar a menina. Ai a mãe desiste do namorado porque não dá pra ficar matando todos os tarados que tentam abusar da filha. A mãe se muda para Paris e Zazie vai passar dois dia um tio, Gabriel, que trabalha numa boate gay onde faz um show transformista. Ele se veste de mulher e dança para divertir as pessoas. A menina pensa que o tio é gay, mesmo ele diz que não é. Que é só um trabalho como qualquer outro, ela insiste. O que parece é que ela não sabe o que é um tipo gay e nenhum adulto tem paciência de lhe explicar.

O que Zazie mais quer é passear e andar de metrô, mas há uma greve dos metroviários em Paris e ela fica frustrada por isso.

Algumas palavras ou expressões são escritas da maneira que as pessoas falam, Por exemplo "Kê ke ele kê?" Quem quiser conferir Zazie dans le metro.

Por fim quando o metrô volta a funcionar Zazie está dormindo e passa por ele sem ver. Ela já está indo embora de Paris fugindo da polícia. 

Há um posfácio com um ensaio de Roland Barthes, caso o leitor não tenha entendido o livro.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

São Paulo Abandonada

É degradante a situação de abandono da cidade de São Paulo. A sujeira sempre existiu mas já teve dias melhores. Agora o lixo se acumula em qualquer dia. Aquele esquadrão de limpadores de rua, a chamada zeladoria que no início da gestão do préfake estava nas ruas fazendo propaganda de empresas de limpeza, sumiu, bem como o dinheiro para a zeladoria, consumido em poucos meses. Certamente as empresas de limpeza não tem do que reclamar. Embolsaram tanto dinheiro que outra mamata como essa pode não se repetir até que um novo prefeito da direita seja eleito pelos paulistanos que ignoram a rua. Nunca, nunquinha vão por o pé nela. Por isso não tem do que reclamar. Se você não vê o que acontece na cidade, como você vai reclamar?

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O cheiro de mijo prolifera pelas ruas de São Paulo. Antes eles até jogavam uma água em algumas calçadas, mas agora não mais. Acabou a água ou acabou o convênio com os caminhões pipa. 

Mendigos à porta de mini-mercados, mercados, restaurantes, te esperam para pedir alguma coisa para comer. Drogados correm atrás das pessoas desesperados por algumas moedas para manter o vício. 

Não que isso nunca tenha existido em SP. Sempre existiu mas não chegava a me tocar como agora. Ficava ao longo. 

Outra coisa que me surpreendeu foi ver os estacionamentos do aeroporto de Guarulhos vazios. Em pouco tempo atrás não havia onde estacionar. As pessoas ficavam rodando a procura de vaga e não havia. Hoje há dois pátios vazios. Dois pátios imensos.

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A linha de trem que deveria chegar no aeroporto ainda não decolou. Na semana em que abriu para testes, apenas no domingo, amargou inundação da chuva. Prova que não se entrega o que não está pronto. Mas vai vendo, se o governador ia deixar uma obra dessas para o vice ficar com os louros da obra. Entregou do jeito que estava. Vai faltar, fazer uma estação para o terminal 2, porque só tem no terminal 1, onde se precisa pegar o bus que faz a transferência entre os terminais. Por enquanto gratuito, mas sabe-se lá por quanto tempo. 

Não é só o estacionamento do aeroporto que está vazio, as ruas, os teatros, as lojas. Tudo isso devido a retração da economia provocada pela insegurança política, o desemprego, a falta de dinheiro.

Há venezuelanos nas calçadas dividindo espaço com os moradores de rua. Soube que os habitues da calçada ficaram indignados com a presença dos venezuelanos. Quem lhes deu essa informação? Pois todo dia milhares de pessoas se juntam aos de casa. Claro que é visível que são diferentes pela aparência que ainda se conserva limpa, o que os distingue dos sujos e super sujos que já estão calejados pelo pretume da rua.

Mas não esperava ver uma disputa de território desse jeito. Há venezuelanos nas calçadas dividindo espaço com os moradores de rua. Soube que os habitues da calçada ficaram indignados com a presença dos venezuelanos. Quem lhes deu essa informação? Pois todo dia milhares de pessoas se juntam aos de casa. Claro que é visível que são diferentes pela aparência que ainda se conserva limpa, o que os distingue dos sujos e super sujos que já estão calejados pelo pretume da rua.

Mas não esperava ver uma disputa de território desse jeito. O brasileiro não é e nunca foi cordial. Seu Buarque de Holande foi um historiador de escritório. Tivesse andado nas ruas e nas periferias teria escrito outras teses. 



quarta-feira, 11 de abril de 2018

Níveis de Leitura

Leitura Superficial: É aquela leitura sem grande atenção ao texto. Um ler por ler para passar o tempo.
Não se presta atenção ao enredo e aos personagens nem na estrutura do texto. Isso não interessa. O leitor superficial atem-se ao gosto-não gosto. É o que menos paciência tem com o livro e desiste dele logo no início. Portanto autores de livros de passatempo devem dar bastante atenção às primeiras 20 páginas para fisgar esse leitor do contrário será mais um livro que irá para uma pilha de não lidos e daí para os sebos.

Leitura Dinâmica: É uma técnica de leitura vertical onde se capta algumas palavras chave e não o texto todo. Não é indicada para livros de literatura. Mas pode ser usada para estudo de escola ou universidade.

Leitura de Inspeçãoo: É uma primeira leitura onde você identifica o que te interessa no texto. Geralmente essa leitura é acompanhada de marcação do texto. Depois você vai voltar e ler melhor o livro todo dando mais atenção as marcações. Pode ser que você ainda encontre algo mais nessa segunda leitura. Outras leituras podem ser necessárias.

Leitura Profunda: Você já leu superficialmente, já inspecionou, mas precisa ler com mais atenção para delimitar ou ressaltar algum tema para seu estudo, para escrever uma tese, um artigo, ensaio, ou mesmo uma resenha. Então você precisa prestar mais atenção seja na primeira leitura ou nas demais caso ache que precise de mais de uma leitura.

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Há fatores que colaboram ou interferem na leitura. Se você lê bem e entende as palavras sem precisar consultar seu significado, a leitura flui melhor. Se você não tem muita experiencia de vida, não viu muitas coisas, não experimentou muitas coisas, o que os linguistas chamam de "experiência de mundo", vão surgir algumas dificuldades naturais que são inerentes a nossa evolução como seres humanos. Eu, por exemplo, por mais que tivesse imaginação, não consegui penetrar no universo mitológico da Ilíada, aos oito anos de idade. Então, esse livro eu tive que deixar para mais tarde.

Quanto mais vivencia a gente tem, mais fácil vai ficando o acesso a certas leituras que não são indicadas para certas faixas de idade, por isso os livros são divididos em faixa etária. Primeiro você lê livrinhos só com imagens, depois que vc. aprende a ler com imagens e texto, mas bem pouco texto, depois vem os livros de aventura, e por ai vai. Nada te impede de ler Ulisses de James Joyce com 12 anos, mas se você não gostar, talvez, vc. não dê a esse livro outra chance mais tarde.

Hoje tem tantas possibilidades de iniciar-se na leitura como ler HQs, Graphic Novels, aqueles quadrinhos de banca de jornal, o audiolivro, os aplicativos de leitores digitais e os próprios livros digitais que nos permitem leva-los para qualquer lugar sem ocupar espaço. 

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Odem Cronologica Importa?

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Enquanto alguns preferem ler autores em ordem cronológica prefiro ler de trás para frente ou em desordem cronológica. Do último ou do meio. 
Alguns livros como os Contos Completos de Clarice Lispector comecei de trás para frente. Funcionou bem, porque ela estava bem mais leve da metade para o fim. 

O início de um autor nem sempre é agradável de se ler. Ele ou ela ainda estão buscando um caminho, tateando no escuro. Então também pode ser penoso ler esses livros iniciais. Alguns podem desistir de ler esses autores se começarem por seus livros de estreia. Por outro lado para quem acha os livros mais maduros complexos pode ser uma boa começar com os primeiros. 


Foi assim que decidi reler a Divina Comédia começando pelo Paraíso. Não por não gostar do Inferno, pelo contrário, mas porque o Inferno é tão rico que se dá pouca atenção ao Purgatório e ao Paraíso. Quando eu li não dei muita importância ao que veio depois do Inferno. Quero recuperar esse espaço perdido. 

Li pouco Virgínia Woolf. Tenho as obras completas dela em e-book. Dei uma olhada e decidi começar do fim. Nesse obras completas o fim são suas cartas e diários seguida de uma biografia dela, depois crônicas,artigos que ela escreveu para jornais. Não deixa de ser um inicio no fim para só depois atacar os romances. 

É claro que um livro em si eu não leio trás para frente, pois acabo sabendo o desfecho antes de saber como se chagou até lá. E isso eu não faço. 

quarta-feira, 28 de março de 2018

Arquipélago de Gulag:Três volumes

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Volume condensado 
Três volumes

Quando minha professora de história, do cientifico, hoje ensino médio, me passou em confiança o Arquipélago Gulag foi porque ela percebeu que naquela classe entre muitos, talvez fosse a mais interessada. E eu era genuinamente interessada em história e biologia. Eram as duas opções de carreira, mas eu esqueceria delas, apesar de ter optado mais tarde pela biologia. Poderia também ter sido quem sabe professora de história. Ou não. Teria que vencer obstáculos como a timidez, a memoria fraca e o medo de falar em público.

Quando a professora me emprestou o Gulag, que eu não consegui ler por completo por ser um soco no estômago, foi com ressalvas. Ela dizia que em outros tempos me emprestar ou mesmo ter esse livro poderia leva-la a um interrogatório na DP ou até à prisão e tortura acusada de subversiva ou comunista. Pois hoje parece que o tempo voltou para trás uns 50 anos.

Ela não ensinava história de forma normal. Ela contava histórias sobre os fatos. Afinal o que é a história senão uma fábula de fatos onde o maior interesse era esconder a verdade e relatar apenas o que interessava. O verniz das coisas.

Quando ela falava das peripécias de Napoleão eu secretamente lia Desiree, de Annemarie Salinko. Era mais interessante acompanhar Napoleão na narrativa de um dos mais famosos romances da época, hoje esquecido, do que nos livros de história.

Hoje, será que algum professor de história poderia mencionar o Gulag em sala de aula? Ou mesmo se arriscaria em pedir que alguém o lesse? E se houvesse algum aluno reacionário na classe certamente o denunciaria e ele/ala sairiam presos da escola.

Tive sorte de estudar num tempo de transição, relativamente calmo. Hoje talvez ensinar história seja mais perigoso que no tempo da ditadura de 64. Infelizmente. Mas nada impede que aquele aluno curioso pesquise na internet e essa é a grande diferença. Pelo menos enquanto não bloquearem a Internet para pesquisa de certas palavras chave que se considere indesejáveis.  

Hoje vejo muitas pessoas lendo o Gulag e me pergunto: Qual o atrativo desse livro? Para historiadores, jornalistas, é importante, mas jovens... Será que terão maturidade para aguentar tanta violência? Talvez tenham. Se são aqueles leitores de histórias de terror. Se já leram Stieg Larsson. Se já viram narrativas muito violentas como Game of Thrones. Pode ser que achem o Gulag mais do mesmo. Mas o Gulag não é fantasia. É algo que aconteceu.

Achei uma edição em três volumes em inglês. São mais de 1500 páginas. Não sei se tenho tempo e disposição para ler algo tão extenso. Há edições em um único volume.

Quem sabe os jovens que estão por de esses dias fendendo a volta da ditadura e outros reacionários deveriam ler esse livro. Basta a edição condensada para, se conseguir, vomitar por um mês de indignação.

A edição que a professora me emprestou ainda encontrada em sebos. A edição em inglês pode ser encontrada em pdf.

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