The only real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but in having new eyes. Marcel Proust


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Biografias: A Viúva Cliquot

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Madame Cliquot, la Veuve, apesar de se chamar Barbe-Nicole Ponsardin, não era uma belezura em pessoa. Viúva aos 27 anos sofreu todos os percalços da época: guerras, preconceito às mulheres que comandavam os negócios. Não foi uma vida fácil como se pode supor pelo requinte da sua marca. A revolução francesa obrigou seu pai a tomar uma posição muito mais em prol de salvar o pescoço que de convicção política. Ele ficou do lado dos rebeldes mas amava a monarquia.

A religião foi proibida pela nova ordem rebelde. Então Barbe teve que casar nos porões da propriedade, onde normalmente ficam as adegas de vinho. Sem alarde, pois quem professasse alguma religião abertamente poderia ser preso e sabe-se lá que fim teria. Mas as famílias seguiam sendo católicas, mesmo que em silêncio.

Depois veio outro pesadelo chamado Napoleão, que apesar de amar o champanha e incentivar sua produção, modernização e importação, amava o champanhe do concorrente, o tal de Moët.

A viúva teve que contar com muita sorte e muito trabalho de seus fiéis colaboradores que ajudaram a expandir a marca, sobretudo na Rússia, onde alcançou grande fama na época do czar Alexander. Todos os percalços com os embargos de guerra foram uma prova de nervos e de ferro para a sobrevivência do negócio. Sua filha única, crescida em colégio interno, precisava casar e o dote exigido pelo pretendente, depois de longa negociação foi de 200 mil francos e mais uma mesada de 20 mil por ano. O genro se mostrou um playboy e exigia sempre mais mimos que Barbe não sabia recusar.

O pai, o irmão faleceram e ela herdou tudo que era do pai, que seria do irmão por ser o filho único.

A reputação do vinho que espumava foi conquistada com muito trabalho e alguns arranjos para burlar os impedimentos. Não teve o apoio de seu pai e do sogro não gostava da ideia de vender vinho borbulhante. Mas depois eles até investiram no negócio. O marido se encarregou de buscar compradores e mais tarde seu esforço foi útil para vencer as barreiras de exportação do produto. Todavia o marido de Barbe morreu cedo de tifo.

No começo o espumante não passava de um liquido muito doce e quase marrom. Como o rei gostava muito a onda se espalhou, pois as tendências na época eram ditadas pela corte.

Levou tempo para o champanhe ser o que é hoje e talvez a empresa de Barbe Nicole tenha colaborado muito nisso. Não produzindo, pois no começo eles apenas compravam o produto em barris, depois passaram a engarrafar. Apesar de terem extensas terras na região da Champanhe  só muito mais tarde passaram a produzir seu próprio vinho complementado com a produção dos vizinhos. como até hoje. O que ela inventou foi uma forma de clarificar a bebida. Inclinando as garrafas com o gargado para baixo. Quando o deposito se prendia a rolha provisória ele era vertido fora, completado com mais e fechado com a rolha da empresa que tinha um cometa impresso nela.
Só mais tarde foi inventado a rede de metal que prende a rolha, o envolucro por cima e os rótulos começaram a ser usados porque um produto tão caro sofria constantes falsificações. Era comum e ainda é pegar uma garrafa original de vinho muito caro e encher com um vinho inferior e revender pelo preço original.

Por um momento ela pensou em se aposentar e doar a a empresa para um dos seus mais fiéis colaboradores, pois não confiava na filha e muito menos no genro playboy, mas o cara que ela faria a doação morreu subitamente. Ela desistiu e resolveu investir na já sepultado negócio do pai, a produção têxtil, mas fora da França, o que se mostrou um desastre. Outro erro foi criar um banco. Custou-lhe um imenso prejuízo.

E ainda tinha a Primeira e a Segunda Guerra por vir.

Mesmo em vida a Viúva já tinha dividido sua empresa com sócios. A Cliquot não pertence mais apenas a família já que Barbe teve apenas uma filha. Todavia, deixou seus descendentes numa situação bem comoda, pois cada preciosa garrafa desse líquido que borbulha pode custar mais que o salário de um trabalhador comum. Mesmo uma taça, quando em seu Chateau, em Riems, não sairá por menos de 15 euros.

Não sou fã da bebida nessa forma, mesmo que fosse não sei se pagaria tanto por ela. Não vou dizer que dessa água não provarei. 




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